4.7.09

saudade;

Carrego no peito um coração saudoso, pesaroso. Quando coração aperta, por saudades sem volta, chove em meu quarto, em meu rosto. Rios lacrimosos descem pela minha face depositando-se em meu travesseiro fofo, encharcando-o aos poucos. É a saudade que quer arrancar o coração do peito, por doer demais. Cicatrizes que não saram, dores que não aliviam. Será sempre preciso tomar analgésicos para amenizar — essa dor, não cura.

É só tristeza e a melancolia
Que não sai de mim
Não sai de mim
Não sai
[Chega de Saudade - Vinícius de Moraes]

3.7.09

amante à moda antiga;

Nós estamos reinventando a antiga forma de amor e permanecendo demodês. Não sou do tipo de seguir estereótipos... Não quando se fala de amor, quando se fala de amar. Quando se fala de mim e de você. Ou da gente. Planejo minhas maneiras para te ver, para te encantar e, assim, poder suspirar pelo teu olho de mar agitado, em turbilhão de felicidade momentânea, que não passa. É teu rosto de surpresa que me alimenta, é tua nova feição de moço que me enlouquece e o cheiro que vem de ti que bombeia o pulsar do meu coração.

Contei as horas para dar certo. Um ônibus cambaleando por uma hora, duas longas retas de caminhada e quarenta minutos de passos rápidos. Uma maratona, por assim dizer. Planejamento, planos, segredos. Mentiras boas, uma ilusão à ti, iludido de propósito, para fazer valer. E depois a recompensa, nos teu olhar verde meio azul, no teu abraço reconfortante e no teu palpitar acelerado de anseio.

É nessa hora que nos silenciamos. Permitimos que o corpo fale por si só, que a respiração segrede o mais puro dos sentimentos e os olhares entreguem-se, revelando-se. Dois corpos como um. Envoltos. As bocas tocam-se, trêmulas e quentes, te beijo tímida, suavemente, saboreando teu hálito de canela, arrepiando-me aos poucos e enxergando estrelas. Noite de poesia nossa.

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• a frase inicial do texto foi sugerida pelo Thiago, quem aceitar o desafio e escrever um texto inciado por ela, favor comunicar nos comentários que eu botarei o link aqui. Quem postou: Menina de Sorte, Panda,

30.6.09

• Em resposta às palavras de Thiago, o tipologista.

O Amor tem disso, destruir-se por ser demais. Uma auto-flagelação impensada, mas natural. Como pode o Amor despedaçar dois corações que amam? É irrisório tanta dor impregnada no sentir, são amargas as lágrimas que descem pela face tristonha e o peso da mala que carrega parece abrigar o mundo. Mas partiu. Foi ela e o Amor, de mão atadas, grudadas, impossíveis de separação.

Ela sempre voltava, bem posso dizer. Dois dias e a raiva ia embora, a saudade machucava e ardia em chamas por dentro, e ela voltava. Entrava porta adentro, largava a mala em um canto da sala e caminhava a passos lentos até o quarto, parando na porta e o olhando. Ele vazio, perdido em seu pensar, em seu pesar. A separação nunca fora boa para nenhum dos dois, bem sei, mas era inevitável ela partir. Caminhava ao seu encontro e, ao lhe ver, ele sentava-se na beirada da cama, imóvel. Fechavam — juntos — os olhos e permitiam a boca calar a agonia, afrouxar a saudade quente e silenciar os desejos, transformando turbilhão em poesia.

Mas amar é doer-se por inteiro, tempo inteiro. E houve novas discussões, as cicatrizes foram reabertas, a dor voltava intensa. E a cena repetia-se novamente, um replay perfeito dos passos, das danças, das lágrimas, dos gritos e do silêncio modorrento. Ela arrumava a mala, jogando as coisas sem ver. Penteava o cabelo, prendendo-o em um coque no alto da cabeça, pegava um jaqueta e, mala na mão e jaqueta noutra, saía porta afora, com rios de lágrimas descendo, silenciosamente, no rosto, coração querendo rasgar-se de tanto doer. No corredor, olhava para trás. Para seu amor, assoprando-lhe um beijo de despedida. Era a garantia que tinha de que passaria, que a raiva não era definitiva e que tudo voltaria ao normal. Só que, nesse último dia, ela não parou. Não olhou. Não se despediu.

Saiu sem olhar para trás, sem lançar um beijo de eu volto e caminhou, firme, arrastando o Amor consigo. Teria de ser assim, pensou. Era necessário partir para que o coração, dele, não mais se ferisse, para que as brigas não mais o desgastasse, para que ele não mais chorasse. Sim, ele chorava quando ela partiu, mas suas lágrimas seriam supridas com o tempo, esquecidas em algum lugar no pensamento e a vida, dele, continuaria. Afinal, o Amor estava com ela. Ela fugiu com o Amor. Fugiu por amar demais.

29.6.09

tudo novo de novo;

Eu vou enjoar, sei que vou. Corre em minhas veias isso: cansar-se. E quando canso, mudo. Desmudo. E mudo outra vez. Uma, duas, três, vinte vezes, se sentir necessário. Que dure semanas, meses ou — será? — anos. Segundos. Minutos. Hora. Comigo é assim, gostar e desgostar. Agora, acho lindo, depois quero esquecer, quero tudo novo de novo. Eu não queria, mas eu sei... É, eu vou mudar.